Saturday, January 13, 2007

O Autocarro

Chove intensamente.
-Tenho que ir apanhar o fabuloso meio de transporte colectivo de cor amarelada… o 24 só passa daqui a 20 minutos. (começa a contar)
Logo no primeiro instante surge-me uma cara que eu conheço, de presença não acessível na minha memória. “De onde é que o conheço?”. Os momentos sucedem-se, o dito sujeito aproxima-se e no primeiro cruzamento de olhar a única coisa que em ocorre é o aquele sorriso neutro, não totalmente denunciado que tanto serve para saudar o próximo como para reflectir o estado de alma. O guarda-chuva encobre. Passa.
Um minuto depois, passa um ford fiesta com manias de porsche. Numa aceleração magistral enche-me de água (antes de uma poça). Os do lado tentam esconder o riso. Um chega a gritar “Ó cabrão, «quéssa» merda?” e eu fico imóvel à espera que o meu contexto, a realidade que me rodeia seja substituída pelo meu quarto e pela cadeira onde me sento.
Ao quinto minuto passa um autocarro, tento vislumbrar-lhe o número. É o 33. Num gesto instintivo olho para o lado oposto a pensar “Estou a ignorar-te, não pares!”.
Espero a caminho no meu raio de metro e meio.
Passados 9 minutos eis que surge o assunto da maior parte do meu pensamento e do meu olhar. Esboço um “Olá, tudo bem?”. Não, a conversa não segue porque ela está com pressa.
24 minutos depois do início chega o dito amarelo. Faço sinal para parar. Todos os outros também, mas eu sou o último a pousar o braço. Eles podem ter-se enganado…
Sou o último a entrar no autocarro e sento-me num dos bancos da última fila de trás. Vejo declarações de amor eterno (Vanessa+Ramiro, I lov u Micaela) ou tentativas de afirmação pessoal escritos nos bancos da frente.
No meio do caminho uma velhinha vai a sair e o condutor fecha-lhe a porta. Ouve-se imediatamente o “Ó Senhor! Olhe a porta!”. Mais à frente alguém manda parar mas desta vez ninguém sai. Quando chega a minha vez um vagaroso obriga-me a abrandar o passo e eu mantenho-me colado para que a porta do autocarro não se feche quando eu passar por lá.
Na primeira aterragem do meu pé esquerdo uma vigorosa chiclet agarra-se à sola do meu sapato. Tento tirar a chiclet na borda do passeio mais próximo e chego a casa aparentemente livre dela.
Ouço ao longe: “Podias ter dito que te ia buscar”.

13 de Dezembro de 2004

É mesmo para provar que já não escrevo há um caralhão de tempo.

3 comments:

Anonymous said...

Só consigo escrever um LOL, enorme e a piscar!
Inês

Base do caralhao said...

de facto, n t podes queixar k n tenhas uma vida cheia de sobressaltos!!!

impulsitem said...

tenho ideia